Autorresponsabilidade e Aceitação na ACT: como construir mudanças sustentáveis

Autorresponsabilidade, Aceitação e Mudança SustentávelUma leitura a partir da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT)

Muitas pessoas chegam à psicoterapia com a sensação de que precisam desenvolver mais disciplina, mais “força de vontade” ou mais controle para conseguir mudar um comportamento. O discurso interno costuma ser rígido, marcado por obrigação e cobrança. O “eu tenho que” aparece como principal motor da mudança.

Na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), compreendemos que transformações sustentáveis raramente nascem desse lugar. Quando a mudança é guiada pela luta contra o desconforto, pela evitação emocional ou pelo medo de falhar, o processo tende a se tornar pesado, exaustivo e difícil de sustentar ao longo do tempo.

A ACT propõe um caminho diferente. Um caminho que parte da Autorresponsabilidade.

Autorresponsabilidade na ACT

Autorresponsabilidade, na ACT, não se confunde com culpa, autocobrança ou endurecimento consigo. Trata-se da capacidade de reconhecer, com honestidade, que não temos controle sobre muitos eventos internos, como pensamentos, emoções e impulsos, e tampouco sobre diversos aspectos da realidade externa, e ainda assim assumir responsabilidade pelas escolhas que fazemos diante disso.

Autorresponsabilidade é sair da tentativa constante de controlar a experiência e passar a se comprometer com ações alinhadas aos próprios valores. Não se trata de se forçar, mas de escolher conscientemente como agir a partir das condições que se apresentam.

A aceitação como ponto de partida

Por isso, a mudança começa pela aceitação.

Aceitar, na ACT, não significa desistir, se conformar ou se resignar. Aceitar é reconhecer, com abertura e honestidade, tanto a experiência interna quanto a realidade externa tal como elas se apresentam, sem lutar contra o que não está sob controle e sem permitir que isso determine automaticamente o comportamento.

A aceitação da experiência interna envolve pensamentos, emoções e sensações corporais que surgem ao longo do caminho. Aprender a observá-los sem julgamentos, sem lutar contra eles e sem tomá-los como uma verdade absoluta. Já a aceitação da realidade externa diz respeito às circunstâncias concretas da vida, aos limites existentes, às condições dadas e aos fatos que não podem ser modificados no momento.

Quando uma pessoa aprende a aceitar esses dois níveis da experiência, ela deixa de gastar energia tentando negar, evitar ou controlar aquilo que não pode ser diferente agora. Essa energia passa a ser direcionada para uma pergunta central na ACT:

Diante dessa realidade, interna e externa, o que eu faço com isso? Qual caminho escolho seguir a partir daqui?

A Aceitação não elimina o desconforto, nem resolve imediatamente os desafios externos. Ela cria espaço para que a pessoa possa se posicionar de forma mais consciente, responsável e alinhada aos próprios valores.

Do “eu tenho que” ao “eu escolho”

Comportamentos sustentados pelo “eu tenho que” costumam estar a serviço da evitação do desconforto, da busca por aprovação externa ou do medo de errar. Já comportamentos guiados pelo “eu escolho” nascem do contato com valores pessoais, aquilo que confere sentido, direção e coerência à vida.

Na ACT, não buscamos um caminho livre de medo, insegurança ou dor emocional. Buscamos flexibilidade psicológica para agir mesmo com essas experiências presentes.

Autorresponsabilidade é poder dizer, de forma consciente, “eu escolho estar aqui”, mesmo quando é desconfortável, porque essa escolha aproxima a pessoa da vida que deseja construir.

Compromisso com o processo, mindset e reprogramação mental

Comprometer-se com o processo envolve compreender como o cérebro aprende a se relacionar com a experiência. O sistema nervoso é moldado por repetição e passa a associar determinados caminhos a ameaça ou a recompensa a partir da forma como eles são vividos.

Quando uma rotina é constantemente atravessada por tensão, autocobrança e controle rígido, o cérebro tende a registrá-la como algo a ser evitado. O desconforto se torna o principal marcador daquela experiência.

Nesse sentido, mudar não é apenas insistir. É treinar o cérebro a perceber o caminho de outra forma.

Na ACT, não buscamos eliminar o desconforto, mas ampliar o repertório de respostas possíveis diante dele. Direcionar a atenção para pequenas experiências de sentido, coerência, competência e prazer que coexistem com o esforço contribui para a reorganização dos circuitos de recompensa.

Com o tempo, o comportamento deixa de ser sustentado exclusivamente pelo esforço e passa a ser mantido pelo sentido. O prazer não antecede a ação. Ele é cultivado dentro dela.

Habitar o caminho

Talvez o convite mais importante seja esse. Não apenas insistir ou resistir, mas aprender, ativamente, a habitar o caminho. Comprometer-se não apenas com o resultado final, mas com o processo que o constrói.

Diante da realidade que se apresenta hoje, interna e externa, qual caminho você escolhe seguir?

Com afeto,

Syl ♡

Sylvia Pedrosa – Psicóloga Clínica, Perinatal e Parental
CRP 04/37228


Se esse texto despertou reflexões sobre suas escolhas, seu modo de lidar com desafios e o caminho que você tem trilhado, saiba que esses são temas trabalhados em psicoterapia a partir da Terapia de Aceitação e Compromisso. O atendimento online é um espaço seguro para aprofundar essas questões com cuidado, presença e responsabilidade.


Referências

As reflexões apresentadas neste texto estão fundamentadas na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) e em contribuições contemporâneas da neurociência afetiva e comportamental. Elas reforçam a importância da flexibilidade psicológica, da aceitação da experiência interna e da realidade externa, bem como do compromisso com valores, como pilares para mudanças sustentáveis e para a construção de uma relação mais saudável consigo mesmo.

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