Primeiro Post da Série “Porque o Amor é Importante“.
Você já parou pra pensar que, quando a gente acolhe um bebê no colo, não está oferecendo só conforto?
Estamos, na verdade, ajudando a moldar o cérebro dele.
Pode parecer poético — e é mesmo.
Mas também é ciência.
Hoje já sabemos, com base na neurociência do desenvolvimento e na teoria do apego, que os primeiros anos de vida são um período profundamente sensível para a formação das estruturas cerebrais responsáveis pelas emoções, pela empatia, pelo autocontrole.
E tudo isso começa… no colo.



Porque o bebê não dá conta sozinho…
Nos primeiros meses (e anos!) de vida, o sistema nervoso do bebê ainda está se organizando. Ele não tem recursos internos pra lidar com medo, frustração, dor ou cansaço.
É por isso que ele precisa de alguém.
Alguém que esteja por perto.
Alguém que acolha.
Alguém que diga com o corpo e com a presença:
“Está tudo bem. Eu tô aqui com você.”
Esse processo — chamado de corregulação — se repete muitas vezes ao longo da infância. E é por meio dessa repetição que o cérebro da criança vai aprendendo, aos pouquinhos, a encontrar equilíbrio por conta própria.
Ele demanda Conexão e Proximidade constantemente.

O que a ciência mostra?
Sue Gerhardt, no livro Por que o amor é importante (2004), nos mostra como o cuidado afetuoso e constante atua diretamente na formação do cérebro.
Ela explica que a presença atenta de um cuidador ajuda a organizar regiões como o sistema límbico, o córtex pré-frontal e a amígdala — todas envolvidas na forma como a criança sente, reage, percebe o mundo e constrói vínculos.
Pesquisas mais recentes, como a de Callaghan e Tottenham (2016), confirmam que o ambiente de cuidado é parte ativa do desenvolvimento emocional. Em outras palavras: o afeto deixa marcas no cérebro. E essas marcas são importantes, protetoras e duradouras.


Mas e na prática, como isso acontece?
A boa notícia é que esse cuidado não depende de fórmulas perfeitas. Ele acontece, quase sempre, nas pequenas coisas do dia a dia:
— Quando o bebê acorda chorando e encontra o peito quentinho da mãe, ou o seu contato quentinho e aconchegante, ou do Pai ou de Cuidador.
— Quando a criança se frustra e escuta: “Tô aqui com você.”
— Quando o adulto respira fundo junto com a criança, ao invés de se apressar em interromper o choro.
— Quando uma crise é acolhida com segurança e gentileza.
— Quando, no lugar de um “não foi nada”, “besteira, não precisa chorar” a criança ouve: “O que houve”? “Está doendo?”, “Está chateado?”,“Você pode sentir. Eu tô aqui pra te acompanhar.”…
— Quando a emoção é nomeada com afeto: “Você tá bravo, né? Eu vejo isso.”
— Quando a conexão vem antes da correção.
— Quando o colo chega antes da cobrança.
Essas situações — simples, humanas, reais — são sementes lançadas num solo fértil: o cérebro em desenvolvimento. E é nesse espaço que a autorregulação começa a nascer.

Afeto não é mimo. É estrutura.
Cuidar com presença não significa impedir que a criança chore ou se frustre. Significa mostrar que ela não precisa passar por isso sozinha.
A autorregulação emocional não nasce de broncas ou punições.
Ela nasce no vínculo. Na repetição de experiências em que o mundo interno da criança encontra espaço no mundo externo do cuidador.
Por isso, sim: o afeto transforma.
É base. É estrutura. É saúde.


Pra guardar no coração
Cada vez que um bebê é acolhido com carinho, ele aprende mais do que os nossos olhos conseguem ver.
Aprende que é seguro sentir.
Que tem alguém pra ajudar.
Que o mundo pode ser confiável.
E esse aprendizado — silencioso, profundo, afetivo — vira raiz.
Raiz que sustenta a vida inteira.
—
Fez sentido pra você?
Se esse texto tocou algo aí dentro… Quero te deixar uma sugestão preciosa de leitura:
“Por que o amor é importante”, de Sue Gerhardt.
Esse livro é um mergulho sensível e profundo nas raízes emocionais da infância. Com embasamento científico e uma escrita acessível, ele nos ajuda a entender a teoria do apego, com mais clareza e compaixão, como o afeto dos primeiros anos deixa marcas que atravessam toda a vida.
Se você cuida de alguém — ou deseja cuidar de si com mais gentileza —, essa leitura pode ser um grande ponto de partida. Disponível aqui.
Com afeto,
Syl
—
Referências bibliográficas:
• Gerhardt, S. Por que o amor é importante: como o afeto molda o cérebro do bebê. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2016. Tradução de Maiza Ritomy Ide.
• Callaghan, B. L., & Tottenham, N. (2016). The neuro-environmental loop of plasticity: A cross-species analysis of parental effects on emotion circuitry development following typical and adverse caregiving. Neuropsychopharmacology, 41(1), 163–176. https://doi.org/10.1038/npp.2015.204
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